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Histórico

Breve histórico da solidariedade na perspectiva Cristã Franciscana

A Solidariedade na Bíblia:

No contexto da história bíblica, a ação de Javé (Deus) remete sempre em favor dos mais fracos e desvalidos. O órfão, a viúva e o estrangeiro são símbolos dos que carecem de cuidados e proteção. Por isso, o Projeto de Deus é um projeto essencialmente de libertação da opressão.

No AT, pode se dizer que, a gênese do “Projeto Pascal” encontra-se na célebre passagem que nos deixa entrever este aspecto da libertação do povo das mãos do Faraó do Egito: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu clamor por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci para libertá-los  […]” (Ex 3, 7-10).

Após a posse da Terra Prometida e na consolidação social do Povo de Deus, há violação do Direito que imputa sofrimento a todo o povo que lamenta: “Até quando os injustos, ó Javé, até quando os injustos irão triunfar? […] Eles massacram o teu povo, Javé, eles humilham tua herança; matam a viúva e o estrangeiro e assassinam os órfãos.” (Sl 94, 3-6) A prática da justiça através do respeito ao Direito (lei mosaica), sobretudo, o dos mais fracos, é a prerrogativa de toda profecia: “Assim diz Javé: praticai o direito e a justiça; arrancai o explorado da mão do opressor; não oprimais o estrangeiro, órfão ou viúva, não os violenteis e não derrameis sangue inocente neste lugar.” (Jr 22,3).

No NT, a Boa-Nova de Jesus revela dimensões da sua missão: “[…] O Espirito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres […]” (Lc 4, 16 – 28); indica um caminho a seguir: “[…] Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber […]” (Mt 25,31-46); aponta para um mundo novo: “Bem-aventurados os pobres em espirito […] os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céus. […]” (Mt 5, 3-12); e não prega outra lei senão a do amor e do serviço: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” (Jo 15,12). Um amor que confere identidade: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos.” (Jo 13, 35), identidade de uma vida fraterna: “Entre eles ninguém passava necessidades.” (At 4, 34). E, para concluir a recomendação dada ao Apóstolo Paulo: “Eles pediram apenas que nos lembrássemos dos pobres, e isso eu tenho procurado fazer com muito cuidado.” (Gl 2,10).

Assim, a Solidariedade desde do Velho Testamento (Ex 3, 7-10), passando pelo Novo Testamento (Fl 2, 5-7), revela-nos o jeito mesmo do ser de Deus!

 

A Solidariedade Franciscana:

Antes de fazer uma referencia à Solidariedade franciscana, vale ressaltar a pessoa de Francisco. As várias fases do processo de sua conversão e o desejo de uma vida genuinamente Evangélica nos remetem ao cuidado com os sofredores. O esmoler e a vida que levou entre os leprosos, mais do que a leitura comum de que “Francisco passa a superar seu asco por leprosos”, há neste evento um verdadeiro encontro de acolhida mútua. O acolhimento mútuo é um caráter fundamental na experiência do serviço aos pobres na solidariedade franciscana.

A chegada dos primeiros irmãos, o trabalho, o espirito de oração e devoção, a descoberta da Vida Fraterna, o seu desejo de abraçar a altíssima pobreza e ser o mais vil e desprezado dentre todos, são aspectos que reportam a um estilo que se apresenta como um itinerário de uma vida simples que nos aproxima dos simples. Por outro lado, também não podemos menosprezar a riqueza franciscana impressa na cultura e no imaginário popular: “Francisco o Santo Pobre e cuidador dos pobres”. 

Na história da Ordem Franciscana e, mais especificamente da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, encontra-se facilmente noticias de acolhimento e serviços dispensados aos empobrecidos. Nos grandes conventos dos centros urbanos, o “Pão dos pobres de Santo Antônio” ultrapassou gerações e continua, ainda hoje, a sensibilizar muitas pessoas a fazer doações em favor dos necessitados. 

Outro espaço de atuação junto aos necessitados foi à presença nos antigos leprosários. Houve frades que doaram toda a vida neste serviço.

A portaria dos conventos, juntamente com as pastorais sociais das paróquias, sempre foram lugar de referencia onde os pobres recorreram e continuam a recorrer confiantes em receber o apoio necessário. 

É importante destacar que os franciscanos sempre realizaram, com focos específicos, ações de cunho social e que, sobretudo a partir do ano 2000, viu-se a importância de organizar suas “iniciativas de caridade e misericórdia” num debate com as políticas públicas que dignificam sistematicamente a vida dos empobrecidos.

 

O Sefras

Esta organização dá origem ao Sefras (Serviço Franciscano de Solidariedade). Um serviço que, para além de responder às “necessidades institucionais”, é expressão da presença solidária entre os mais pobres e desvalidos.

A partir 2009, com a aprovação da lei 12.101, que regulamenta o trabalho filantrópico no Brasil, os franciscanos, no cumprimento desta vigência, desmembraram da instituição religiosa os trabalhos do Sefras e organizaram uma nova personalidade jurídica para dar continuidade a histórica ação social franciscana.

Reunidos em Capítulo (Assembleia) no ano de 2012, os frades aprovaram o redimensionamento do Secretariado da Evangelização (órgão que coordenada os trabalhos de evangelização da Província) compondo-o em cinco frentes: paróquias e Santuários, educação, comunicação, solidariedade para com os empobrecidos e missões. Neste novo contexto organizacional o Sefras passa a compor uma das cinco frentes de evangelização: a Frente de Solidariedade para com os Empobrecidos. O trabalho social passa a ser reconhecido como uma ação inerente à evangelização.

No ano de 2014 foi aprovada a lei nº 13.019 que entrou em vigor no ano de 2016. É a lei popularmente conhecida como de “Marco Regulatório das Organizações Sociais”. Esta nova regulamentação, de iniciativa popular, tem como objetivo dar maior segurança jurídica as inúmeras organizações da sociedade civil. Organizações que tem suas origens em pessoas que, sensíveis às demandas sociais se dispõem a desenvolver atividades que vão desde o alívio ao sofrimento humano até a promoção da vida com dignidade. O Sefras encontra-se entre as milhares de organizações de todo o Brasil que foram contempladas com esta legislação.

Enfim, a marca das pegadas da presença franciscana é significativa nas possíveis compreensões da palavra “periferia”. Desde as geográficas até as existenciais como: crianças e adolescentes, juventude, idosos, população de rua, catadores de recicláveis, encarcerados, migrantes e portadores de HIV/Aids. Hoje o Sefras conta com 11 Serviços, em três Estados da federação, com capacidade média de 1600 atendimentos diários.

É importante destacar ainda, que esta visão encontra plena ressonância com a leitura que o Papa apresenta de São Francisco na Laudato Si. Ele procura recuperar a história e a imagem do Santo de Assis, vinculando com os desafios do presente: “Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior. O seu testemunho mostra-nos também que uma ecologia integral requer abertura para categorias que transcendem a linguagem das ciências exatas ou da biologia e nos põem em contacto com a essência do ser humano. (…)Esta convicção não pode ser desvalorizada como romantismo irracional, pois influi nas opções que determinam o nosso comportamento. (…) A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio.” (LS, &10,11, grifos nossos). Nisto consiste a solidariedade franciscana.