As marcas que nos tornam irmãos
Memória dos Estigmas de São Francisco de Assis — 17 de setembro

Há marcas que não se veem.
Há marcas que a vida escreve silenciosamente no corpo, na memória e no coração. Marcas de partidas e chegadas, de perdas e recomeços, de solidão, de abandono, de preconceito, de saudade. Há também marcas de ternura: uma mão estendida, uma mesa compartilhada, um abraço que devolve dignidade, uma presença que diz, sem palavras: “você não está sozinho.”
No dia 17 de setembro, fazemos memória dos Estigmas de São Francisco de Assis. Francisco carregou em seu corpo os sinais de uma profunda identificação com o Cristo pobre e crucificado. Mas, para nós, do Sefras essa memória pode ganhar uma dimensão ainda mais humana e franciscana: aprender a reconhecer as marcas de nossos irmãos e irmãs e não passar ao largo delas.
Francisco nos ensina a aproximar-nos do que o mundo muitas vezes prefere esconder.
No imigrante e refugiado, encontramos a marca da partida. Há uma casa deixada para trás, uma língua que ainda procura palavras, uma saudade que atravessa fronteiras. Acolher é dizer: Tem lugar para você nesta terra.
Na pessoa em situação de rua, encontramos as marcas de uma sociedade que muitas vezes deixou pessoas pelo caminho. Seus corpos carregam noites frias, fome, invisibilidade e histórias que precisam ser escutadas. Cuidar é devolver o direito de ser visto, chamado pelo nome e reconhecido em sua dignidade.
Na pessoa idosa, encontramos as marcas do tempo. Rosto, mãos e olhos guardam histórias de trabalho, amor, perdas, lutas e sonhos. Há uma sabedoria que não cabe nos livros. Aproximar-se de uma pessoa idosa é tocar a memória viva da humanidade.
Nas crianças e adolescentes, encontramos marcas que ainda estão sendo desenhadas. Algumas carregam alegrias luminosas; outras, feridas que nenhum coração deveria conhecer tão cedo. Defender é proteger seus sonhos, sua infância, sua voz e seu direito de crescer em segurança, afeto e dignidade.
E nas pessoas acometidas pela hanseníase, encontramos marcas que durante muito tempo foram usadas para excluir. Marcas no corpo que não podem jamais se transformar em marcas de rejeição. Francisco nos recorda que a fraternidade começa justamente quando atravessamos o medo e nos aproximamos daquele que a sociedade afastou.
Talvez seja este o grande ensinamento dos Estigmas: não existem feridas que diminuam a dignidade de uma pessoa.
Francisco não contemplou a dor para permanecer nela. Contemplou-a até que ela se transformasse em compaixão.
Também nós somos convidados a olhar para as marcas do nosso tempo. Não para julgar, para ter pena. Mas para acolher, cuidar e defender
Porque o sagrado que habita em todos não chega até nós apenas nos lugares considerados santos. Ele se revela no rosto cansado de quem dorme na rua, no olhar saudoso de quem atravessou fronteiras, nas mãos enrugadas de quem viveu tantos anos, no sorriso de uma criança, na história de quem sofreu com a hanseníase.
Talvez os verdadeiros estigmas do nosso tempo sejam aqueles que a sociedade insiste em não querer enxergar.
E a nossa vocação franciscana seja justamente esta:
ver. aproximar. tocar com delicadeza. cuidar. defender .e permanecer.
Que a memória dos Estigmas de Francisco nos ensine a reconhecer, nas feridas de cada pessoa, uma história sagrada.
E que nossas mãos, nossos pés e nosso coração possam se tornar, no caminho, lugares de acolhida, cuidado e defesa da vida.
Porque quando tocamos com amor a ferida de alguém, descobrimos que a fraternidade também deixa marcas.
Marcas bonitas.
Marcas de humanidade.
Marcas de paz.
*Frei Tiago Elias




Comentários