Encontro inter-religioso no Sefras debate paz, moradia e dignidade
O Sefras – Ação Social Franciscana realizou nesta quarta-feira (28) um encontro inter-religioso no Chá do Padre, no centro de São Paulo. Representantes de diferentes tradições religiosas se reuniram para conversar sobre o tema “Casa, Direito e Dignidade”, que ligou a construção da paz ao respeito entre as crenças, ao direito à moradia e à dignidade humana.

Compuseram a mesa frei Vagner Sassi, diretor-presidente do Sefras; padre Arlindo Pereira Dias, SVD, presidente da Rede Rua; mãe Vanessa Labigalini, representante da Umbanda; Imã Ihtsham, vice-presidente da Comunidade Muçulmana Ahmadia no Brasil; e pastor Ricardo Machado, evangélico e ativista pela moradia. A mediação foi de frei Tiago Elias, vice-presidente do Sefras.
O encontro foi realizado em referência ao Dia do Espírito de Assis, celebrado em 27 de outubro. A data lembra a jornada de oração pela paz mundial que o papa João Paulo II convocou em Assis, na Itália, em 1986, com lideranças de várias religiões. Em um contexto de polarização e intolerância, a conversa retomou a importância do diálogo entre as crenças.
Crenças diferentes, o mesmo compromisso com a dignidade
Os participantes falaram a partir de suas tradições e apontaram valores comuns, como o amor ao próximo, a fraternidade e o reconhecimento da dignidade de cada pessoa.

Para o Imã Ihtsham, encontros como esse são necessários diante do aumento da intolerância. Ele afirmou que lideranças religiosas e políticas ajudam na convivência quando mostram, na prática, que é possível respeitar quem pensa e acredita de outra forma.
“Podemos ter opiniões e crenças diferentes, mas precisamos ter respeito uns pelos outros para continuar vivendo nesta sociedade e construir uma justiça e uma paz duradouras”, afirmou.
O Imã também lembrou que a tradição muçulmana, assim como a cristã, orienta a relação com Deus e com o próximo. Reconhecer a humanidade compartilhada, independentemente da religião, foi um dos pontos de convergência da mesa.

Mãe Vanessa falou sobre o que a casa significa: pertencimento, acolhimento e apoio coletivo. “Casa, para nós, é o lugar do coletivo, onde nos resgatamos. É ponto de partida e o nosso porto”, disse.
Ela acrescentou que a paz precisa ser construída todos os dias, com escuta e disposição para estar junto. Na avaliação dela, o encontro permitiu que representantes de tradições diferentes se reconhecessem e aprendessem uns com os outros.
Moradia faz parte da discussão sobre dignidade
O pastor Ricardo Machado, que atua na região central de São Paulo na luta por moradia, disse que participar de uma mesa sobre moradia, cidadania, paz e direitos corresponde ao compromisso que orienta sua vida como discípulo de Jesus de Nazaré.
“Estar aqui com o Sefras, em uma mesa de diálogo inter-religioso sobre moradia, cidadania, paz e direitos, é o cerne daquilo em que acredito como discípulo de Jesus de Nazaré”, afirmou.
Ele defendeu que as religiões se aproximem para que a Terra seja um lugar de direitos, dignidade e vida para todos. Sua fala trouxe a fé para perto das condições concretas de quem vive sem moradia e enfrenta outras formas de exclusão.
O tema também conversa com a Campanha da Fraternidade 2026, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que tem como tema “Fraternidade e Moradia” e como lema “Ele veio morar entre nós”. A campanha propõe refletir sobre a moradia digna como direito fundamental e condição para a garantia de outros direitos.
Pela perspectiva franciscana, frei Vagner Sassi afirmou que a defesa da vida em todas as suas formas faz parte da missão inspirada por São Francisco de Assis. Segundo ele, reconhecer que cada ser humano tem dignidade e valor exige ações concretas. Essa visão está presente no trabalho do Sefras, que atua no acolhimento, no cuidado e na defesa de pessoas em situação de vulnerabilidade. Nesse contexto, falar de casa é falar do espaço de afeto e pertencimento e também do direito a uma moradia segura.
Padre Arlindo lembrou que a dignidade humana existe desde o nascimento e não depende da condição social, das conquistas ou do reconhecimento de outras pessoas.

Construir pontes em um mundo de divisões
Na mediação, frei Tiago Elias recordou o encontro de São Francisco de Assis com o sultão muçulmano al-Malik al-Kamil, em 1219, durante as Cruzadas, episódio que se tornou referência para o diálogo entre pessoas de religiões diferentes na tradição franciscana. A partir desse exemplo, ele destacou a necessidade de unir esforços em favor de quem enfrenta desigualdade e exclusão social.

“Diante de um mundo que constrói muros, nós construímos pontes. Somamos forças, principalmente junto daqueles que mais sofrem e vivem em situação de vulnerabilidade social”, afirmou.
O encontro aconteceu em uma Casa que acolhe pessoas em situação de rua, o que aproximou o debate entre religiões da realidade de quem tem direitos negados e dificuldade de acesso a condições dignas de vida.
Para os participantes, a construção da paz passa pelo compromisso com a dignidade humana e pelo trabalho conjunto para que todas as pessoas tenham seus direitos reconhecidos.




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