top of page

Fraternidade e Moradia: vozes da rua e caminhos de esperança marcam debate do Sefras

  • Foto do escritor: Melissa Galdino
    Melissa Galdino
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

A partir da Campanha da Fraternidade 2026, o Sefras - Ação Social Franciscana promoveu, no dia 16, no Chá do Padre, a mesa redonda “Fraternidade e Moradia: vozes da rua e caminhos de esperança”, reunindo movimentos sociais, especialistas, lideranças religiosas e pessoas com vivência nas ruas para refletir sobre o direito à moradia. O debate ocorre em um contexto de crescimento da população em situação de rua no Brasil, que já ultrapassa 358 mil pessoas, segundo o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da UFMG, cenário que reforça a urgência de tratar a moradia como direito, e não como mercadoria.


Participaram da conversa Frei Marx Reis, pároco da Paróquia Santa Cruz do Jardim Peri Alto; Jonathan, sociólogo e membro do Conselho Participativo de São Paulo; Cláudia Defendi, assistente social e especialista em migração, participação social e acesso à moradia; Matheus Cruz, psicólogo, educador e mobilizador político no projeto Mobilizando para os Direitos e a Participação, do Sefras; Pedro Luiz, catador, mobilizador da ANCAT e membro do MNPR; Edvaldo, coordenador do MNLDPR,  Rildo, advogado e defensor dos Direitos Humanos; e David Zamory coordenação estadual do MST e do Projeto Mãos Solidárias. A mediação foi realizada por Frei Tiago Elias, vice-presidente do Sefras.


Uma mística que convida a olhar a realidade


Inspirado pela proposta da Campanha da Fraternidade 2026, o encontro teve início com um momento de mística conduzido por Frei Tiago e por participantes do Chá do Padre.


Durante a atividade, foi encenada a imagem que inspira a campanha, um homem em situação de rua deitado em um banco e coberto, trazendo para o centro do debate a realidade vivida por milhares de pessoas nas cidades brasileiras.


Ao conduzir o momento, Frei Tiago destacou a importância de partir da realidade concreta: “O primeiro passo é ver. Ver a realidade como ela é e não desviar o olhar diante das injustiças.”

Moradia como direito, não como mercadoria


Na abertura do debate, Frei Marx destacou que discutir moradia é falar de dignidade e de direitos fundamentais, tema diretamente relacionado à reflexão proposta pela Campanha da Fraternidade deste ano.

“É preciso entender a moradia como direito e não como propriedade. Moradia é direito constitucional”, afirmou.

A fala sintetizou um dos principais pontos do encontro: a necessidade de romper com a lógica que transforma a moradia em mercadoria, restringindo o acesso de grande parte da população.

A casa não pode ser tratada como produto, é condição básica para a vida.

O frade também ressaltou que a ausência de moradia impacta diretamente outras áreas, como saúde, mobilidade e acesso a serviços públicos.


“Se Deus é bom, as mazelas da vida não podem ser aceitas.”


Entre imóveis vazios e pessoas sem casa



Durante o debate, o advogado Rildo chamou atenção para a contradição presente nas cidades brasileiras: ao mesmo tempo em que há inúmeros imóveis vazios, cresce o número de pessoas em situação de rua.


Segundo ele, embora o direito à moradia esteja previsto na Constituição Federal, muitas pessoas seguem excluídas das políticas públicas que deveriam garanti-lo — cenário diretamente relacionado à lógica da especulação imobiliária.


Quando a moradia vira mercadoria, o direito deixa de ser universal.

A voz de quem vive a realidade da rua


Edvaldo, coordenador do MNLDPR, trouxe a experiência de quem viveu mais de 30 anos nas ruas. Ele destacou a ausência de políticas públicas efetivas voltadas à população em situação de rua e a dificuldade de acesso a direitos básicos.


Outro ponto levantado foi a falta de dados sobre essa população, o que dificulta a formulação de políticas mais adequadas às suas necessidades.


Terra, cidade e desigualdade


David Zamory apresentou a perspectiva da luta pela terra e explicou como a questão fundiária no Brasil impacta diretamente o acesso à moradia.

Segundo ele, sem acesso à terra não é possível garantir direitos básicos como moradia, alimentação e serviços públicos, evidenciando que o debate também se conecta com a forma como o território é distribuído no país.


A realidade das mulheres


Cláudia Defendi destacou que a falta de moradia afeta de forma diferente as mulheres, que muitas vezes enfrentam múltiplas violências e carregam responsabilidades familiares.


Ela também ressaltou a importância de compreender que muitas desigualdades são naturalizadas, quando, na verdade, são construções sociais que precisam ser enfrentadas coletivamente.







Moradia como ponto de partida


Ao longo do encontro, Matheus Cruz destacou que a ausência de um espaço privado impacta diretamente a dignidade das pessoas.


Sem um lugar para viver, atividades básicas do cotidiano como se alimentar, descansar ou cuidar da saúde tornam-se mais difíceis, ampliando as situações de vulnerabilidade.


Nesse contexto, a moradia deixa de ser apenas uma necessidade material e passa a ser compreendida como base para o exercício de outros direitos.


Garantir moradia é garantir o começo de uma vida com dignidade.


Construção coletiva


Realizado no Chá do Padre, o encontro evidenciou a importância de iniciativas concretas no enfrentamento à situação de rua. O espaço, mantido pelo Sefras, é uma das principais referências de acolhimento na cidade de São Paulo. Por ser um serviço de portas abertas, o fluxo de atendimento é dinâmico: são cerca de 800 refeições servidas diariamente, podendo chegar a até 2 mil pessoas atendidas em um único dia.



Além da alimentação, a Casa oferece uma série de atividades e serviços voltados à dignidade e ao fortalecimento de vínculos, como banho, distribuição de kits de higiene, atendimento social, rodas de conversa, momentos de escuta, atividades formativas e ações de convivência.


Ao longo de sua trajetória, o Chá do Padre se consolidou como um espaço que vai além da assistência imediata, promovendo acesso a direitos, participação social e reconstrução de trajetórias.


Nesse contexto, iniciativas como essa demonstram, na prática, que garantir dignidade passa não apenas pelo acesso à moradia, mas também por políticas e ações contínuas de cuidado e inclusão.


Garantir moradia não é apenas enfrentar a falta de um teto é assegurar o começo de uma vida com dignidade.


Comentários


bottom of page