Postulantes franciscanos vivem rotina do Sefras
- Melissa Galdino
- há 14 horas
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Experiência levou nove jovens do Seminário Frei Galvão, a serviços que atendem crianças, idosos e pessoas em situação de rua; entre refeições, reciclagem e momentos de convivência, período aproximou os postulantes da realidade do trabalho social
Durante o mês de julho, postulantes do Seminário Frei Galvão, em Guaratinguetá (SP), das Províncias da Imaculada Conceição do Brasil e São Francisco de Assis, viveram uma experiência de serviço nas casas e serviços do Sefras – Ação Social Franciscana. Mais do que conhecer projetos de atuação social, os nove jovens passaram a fazer parte da rotina de espaços que atendem pessoas em situação de rua, idosos, crianças e adolescentes e trabalhadores da reciclagem.

A experiência começou na Fraternidade Santo Antônio do Pari, sede central do Sefras, onde os postulantes foram acolhidos e passaram a acompanhar a rotina da organização. De segunda a sexta-feira, eles foram distribuídos entre quatro frentes: Recifran, Casa de Clara, Casa Franciscana e Chá do Padre.
Ao longo do mês, a formação aconteceu também no contato cotidiano com essas diferentes realidades. Entre a preparação e a entrega de refeições, a organização de materiais recicláveis, as atividades com crianças e os momentos de convivência com idosos, os postulantes foram convidados a escutar histórias, compreender trajetórias e participar de uma rotina marcada pelo cuidado e pela defesa da dignidade.
A proposta, nesse sentido, não se resumiu a uma experiência de voluntariado. Foi uma oportunidade de vivenciar o trabalho social de perto e perceber como o atendimento cotidiano é construído a partir de relações, escuta e presença. Para os postulantes, o contato com as pessoas atendidas também provocou novas perguntas sobre pobreza, vulnerabilidade, preconceito e as diferentes formas de cuidado.
Para o presidente do Sefras, frei Vagner Sassi, a presença dos postulantes também expressa uma dimensão importante do trabalho da organização: a formação a partir da realidade.
“Quando alguém se aproxima de uma realidade diferente da sua, começa também a enxergar aquilo que antes poderia passar despercebido. Para nós, receber os postulantes é uma oportunidade de compartilhar o trabalho do Sefras, mas também de aprender com eles. O encontro com as pessoas atendidas nos recorda que cuidar, acolher e defender direitos começa pelo reconhecimento da dignidade de cada pessoa.”
Quando o outro deixa de ser desconhecido
No Chá do Padre, serviço voltado à população em situação de rua, o contato direto com as pessoas atendidas ajudou os postulantes a rever percepções construídas à distância.
Nicolas Baraldo, passou o mês no serviço. Para ele, a vivência também está relacionada à forma como os franciscanos compreendem o próprio caminho de formação.
“Seguimos a máxima de São Francisco, que é fazer da nossa vida um Evangelho vivo, para que as pessoas possam enxergar Cristo em nós. Espero que nós, postulantes, possamos colher frutos muito abundantes dessa experiência”, afirma.
João Lucas Almeida e Mateus Fernando Teixeira Porcatt, que também passaram pelo serviço, encontraram ali uma oportunidade de rever imagens pré-concebidas sobre a população em situação de rua.
Para João Lucas, o período ajudou a desmontar ideias construídas à distância. “Muitas vezes a gente idealiza, romantiza ou tem preconceito com certas populações. Ver como eles estão numa realidade muito próxima da nossa, como a gente vive às vezes em sintonia com eles, foi muito importante”, afirma.
Porcatt, pediu para viver essa experiência mais de perto.
“Eu desejava conhecer não somente a realidade deles, mas quem é realmente aquela pessoa que está deitada ali na rua, que muitas vezes a gente passa e nem percebe que tem alguém ali”, relata.
O resultado, segundo ele, foi um olhar mais humanizado. “Saio dessa experiência de uma forma muito mais humanizada e consegui enxergar Cristo também na vida dessas outras pessoas.”
Histórias que ficam
Na Casa de Clara Belém, o contato aconteceu em outro ritmo. Em vez da urgência característica dos serviços voltados à população em situação de rua, os postulantes encontraram tempo para conversar, ouvir e conhecer histórias.
Rodrigo Oliveira passou o mês junto às pessoas idosas atendidas pela casa. Para ele, o principal aprendizado esteve na convivência.
“É uma experiência muito rica, de escutar muitas histórias e fazer parte. Mostra uma característica da nossa missão: acolher, cuidar e defender”, avalia.
Vinícius Bazzo, que também esteve na Casa de Clara, destaca a criação de vínculos com pessoas em sua maioria já sozinhas, viúvas ou viúvos.
“Estamos desfrutando dessa experiência de estar em comunhão com eles, ouvindo histórias, contando histórias. É uma vida que dá para levar para sempre, para o coração”, resume.
Para os dois, a vivência mostra que o trabalho social também acontece nos encontros cotidianos. Mais do que acompanhar atividades, estar na Casa de Clara significou compartilhar conversas, memórias e momentos de convivência com pessoas que carregam histórias diferentes, mas que encontram naquele espaço uma oportunidade de estar com o outro.
O trabalho como encontro

No Recifran, serviço de apoio à reciclagem, Matheus Tavares encontrou pessoas em processo de reconstrução de suas trajetórias, inclusive na busca pela inserção no mundo do trabalho.
“Aqui a gente tem esse encontro com o leproso, porque encontramos neles a figura de Cristo, assim como São Francisco encontrou nos leprosos a figura de Cristo”, observa.
A experiência também permitiu compreender que o trabalho social passa pelo reconhecimento das histórias que existem por trás de cada atendimento.
Matheus Battisti, de 33 anos, também passou pelo Recifran, além de ter conhecido o trabalho do Chá do Padre e da Perfeita Alegria. No serviço de reciclagem, procurou estar próximo dos participantes e conhecer suas histórias.
“É muito enriquecedor estar junto e reconhecer que cada ser humano tem a sua dignidade e deve ser respeitado — devemos defender os seus direitos e também os seus deveres”, afirma.
A esperança também mora na infância
Na Perfeita Alegria Peri, o encontro foi com crianças e adolescentes. Igor Sposito passou o mês no serviço e afirma que a experiência teve impacto direto em sua caminhada.
“Foi um momento muito marcante, que animou o caminho vocacional e abriu minha perspectiva para novos caminhos que eu não conhecia. Estar com eles é viver a esperança que brilha no olhar de cada um”, diz.
A rotina ao lado das crianças também apresentou aos postulantes uma dimensão do trabalho social ligada à construção de vínculos e à garantia de espaços de convivência e desenvolvimento.
Fernando Andrade de Jesus também passou pela Perfeita Alegria e destaca a acolhida que recebeu das crianças e dos educadores.
“Pude participar de toda a rotina, das brincadeiras às refeições. É uma experiência muito edificante, que a Ordem nos ensina: ajudar, acolher e bem cuidar das nossas crianças”, afirma.
O que fica depois da experiência
Ao final do estágio, o que fica para os postulantes não é apenas o conhecimento sobre o funcionamento de cada serviço, mas as relações construídas ao longo das semanas e a percepção de que o trabalho social se faz também na presença cotidiana.
Estar ao lado de crianças, idosos, trabalhadores da reciclagem e pessoas em situação de rua permitiu conhecer histórias e realidades que, muitas vezes, permanecem invisíveis para quem olha de fora. Nesse sentido, a vivência no Sefras ultrapassou a tarefa de acompanhar rotinas: foi uma oportunidade de experimentar, na prática, o que significa acolher, escutar e reconhecer a dignidade de cada pessoa.
Para os nove jovens, o período também reafirmou uma dimensão presente na formação franciscana: a aproximação com diferentes realidades como caminho de aprendizado. Ao circular pelas casas e serviços, eles não apenas levaram sua disposição para ajudar, mas também voltaram para casa atravessados pelas histórias e pelos encontros que tiveram ao longo do mês.
A experiência terminou em julho, mas não necessariamente se encerrou ali. Para quem passou um mês entre crianças, idosos, trabalhadores da reciclagem e pessoas em situação de rua, São Paulo deixa de ser apenas cenário. Vira memória, rosto e história.




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