X Jornada Mundial dos Pobres convida comunidades a transformar a realidade

Instituída pelo Papa Francisco em 2016, ao final do Ano Santo da Misericórdia, a Jornada Mundial dos Pobres nasceu como um convite à Igreja e à sociedade para reconhecer a dignidade das pessoas empobrecidas, aproximar-se de suas realidades e enfrentar a indiferença e a exclusão. A primeira edição aconteceu em 2017 e, desde então, a iniciativa é celebrada anualmente no 33º Domingo do Tempo Comum, com momentos de oração, partilha e ações concretas em favor das pessoas em situação de vulnerabilidade.
Em 2026, a décima edição será celebrada no dia 15 de novembro, sob o tema “O Senhor é o refúgio do pobre”, inspirado no Salmo 14,6. A proposta é fazer das comunidades eclesiais espaços de acolhida, reconhecendo que a resposta à pobreza não pode se limitar à ajuda imediata. Em outras palavras, é preciso garantir a participação das pessoas afetadas, defender direitos e atuar sobre as condições que produzem exclusão.
Veja mensagem do Ministro provincial da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, Frei Paulo Pereira, ofm.
A pobreza para além dos números
No Brasil, a pobreza continua a representar um desafio social amplo. Segundo dados do IBGE de 2025 citados no subsídio nacional da Jornada, 25,1% da população (cerca de 53,4 milhões de pessoas) vivia em situação de pobreza monetária. O material ressalta que os indicadores de renda não mostram toda a dimensão do problema, já que a precariedade habitacional, o desemprego, o trabalho informal ou mal remunerado e as dificuldades de acesso à saúde, à educação, à documentação, à internet e à proteção social também comprometem a dignidade.
Há ainda situações menos visíveis, como a solidão, a fragilidade dos vínculos comunitários e a falta de espaço para participar das decisões que afetam a própria vida. A vulnerabilidade se agrava em contextos marcados pelo racismo, pelo machismo e pela discriminação contra migrantes, povos indígenas, comunidades quilombolas, pessoas com deficiência, população em situação de rua e pessoas privadas de liberdade.
Nesse contexto, o subsídio da X Jornada Mundial dos Pobres propõe três movimentos complementares: fazer da Igreja um refúgio, reconhecer as pessoas empobrecidas como sujeitos de direitos e passar da solidariedade à justiça. A intenção é articular o cuidado imediato com iniciativas de organização comunitária, defesa de direitos, participação em políticas públicas, promoção do trabalho digno, garantia da moradia, segurança alimentar e cuidado com a Casa Comum.
Quatro reflexões para compreender a proposta
Os quatro artigos reunidos no documento oficial aprofundam diferentes dimensões desse compromisso. Em “Romper a invisibilidade: uma missão profética e transformadora”, a Irmã Eliane Santana explica que romper a invisibilidade exige tempo e disponibilidade para conhecer as histórias de quem enfrenta a pobreza. Isso implica rever as prioridades comunitárias e assegurar que essas pessoas possam participar das decisões.
Já no artigo “A escuta qualificada aos pobres”, Pe. Alfredo Gonçalves destaca que escutar não é uma atitude automática, pois exige empatia e disposição para compreender a realidade a partir da perspectiva do outro. O autor propõe substituir a lógica de fazer algo para as pessoas pela construção de caminhos com elas, reconhecendo-as como protagonistas do próprio futuro, em vez de mantê-las em uma relação permanente de dependência.
A questão da moradia é o tema principal abordado por Frei Marcelo Toyansk Guimarães no artigo “Refúgio aos pobres na garantia de seus direitos por moradia”. O frade relaciona a ideia de refúgio à necessidade de um lugar seguro para viver e recorda que a precariedade habitacional atinge também famílias que têm um teto, mas enfrentam insegurança, condições inadequadas ou aluguéis que comprometem a renda.
Por fim, Pe. Edson Thomassim, em “Minha comunidade eclesial transforma o mundo – Da solidariedade à transformação”, afirma que a solidariedade cristã conduz à pergunta sobre as causas da fome, da exclusão, da falta de moradia, do desemprego e de outras formas de negação da dignidade. Para o autor, a comunidade transforma a realidade quando escuta as pessoas empobrecidas, fortalece redes, participa dos espaços de decisão e soma forças na defesa de direitos. Ou seja, a ação solidária não substitui a responsabilidade do poder público, mas pode contribuir para que os direitos sejam reconhecidos e efetivados.
Seis passos para o encontro com os pobres
O subsídio também propõe que as comunidades organizem o encontro com as pessoas empobrecidas em seis etapas, que podem orientar atividades durante a Jornada:
● Chegar: aproximar-se não apenas para realizar uma atividade, mas para encontrar pessoas e conhecer suas histórias;
● Acolher: criar um ambiente de respeito, confiança e fraternidade;
● Rezar: fazer uma breve oração, pedindo a Deus um coração capaz de escutar, mãos dispostas a servir e coragem para transformar as causas da pobreza e da exclusão;
● Escutar: perguntar às pessoas o que gostariam que a comunidade soubesse sobre sua realidade;
● Partilhar: promover uma ação concreta de convivência, que favoreça relações de proximidade e reciprocidade;
● Comprometer-se: definir uma iniciativa possível para dar continuidade ao trabalho depois da Jornada
A proposta valoriza a convivência como parte essencial do encontro. Em vez de organizar atividades em que as pessoas pobres apenas recebem ajuda, a orientação é criar espaços nos quais todos possam partilhar experiências e participar da definição dos próximos passos.
O material apresenta sugestões que podem ser adaptadas à realidade de cada paróquia ou comunidade. Uma delas é organizar uma mesa compartilhada, com café da manhã, almoço ou jantar comunitário, na qual pessoas atendidas e voluntários se sentem juntos, sem separar quem serve de quem recebe. Outra possibilidade é promover um dia da escuta, abrindo a igreja ou o salão paroquial para ouvir pessoas em situação de vulnerabilidade e perguntar o que está mais difícil e o que pode ser feito em conjunto.
Também são sugeridas visitas a ocupações, periferias, locais onde vivem pessoas em situação de rua, famílias isoladas, idosos, migrantes e pessoas privadas de liberdade. Mutirões de documentação e orientação sobre direitos podem ser realizados em parceria com serviços públicos e organizações locais, facilitando o acesso a benefícios sociais, saúde, educação e moradia.
Entre as demais iniciativas estão:
● mutirões de cuidado e de pequenos reparos em moradias precárias; ● redes permanentes de apoio alimentar; ● cozinhas, despensas e geladeiras solidárias; ● hortas comunitárias; ● feiras de economia solidária; ● ações de elaboração de currículos e orientação profissional; ● e acolhimento a migrantes e refugiados.
O subsídio propõe ainda mapear as situações de vulnerabilidade presentes no território para identificar quem precisa ser visto e ouvido. Uma das sugestões é reunir pessoas empobrecidas em uma assembleia para que elas próprias indiquem mudanças necessárias no bairro ou na comunidade. A partir dessa escuta, cada paróquia pode escolher, junto com os participantes, uma causa para acompanhar até a próxima Jornada. Moradia, fome, trabalho, população em situação de rua, cuidado com idosos e crianças, migração, saneamento e documentação estão entre as possibilidades.
A proposta também se estende às pastorais sociais, redes e grupos sociotransformadores, convidados a assumir uma ação em favor da vida e da dignidade humana. O lema sugerido pelo subsídio, “Minha comunidade eclesial transforma o mundo”, pode orientar iniciativas de acordo com a missão de cada grupo. As iniciativas, orienta o documento, podem ser realizadas durante a semana da Jornada ou desenvolvidas como compromissos permanentes, em parceria com outras pastorais, organizações populares, serviços públicos e grupos comunitários.




Comentários