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  • Foto do escritorMelissa Galdino

Sefras em Roraima: Desafios e Impactos da Imigração e Tráfico Humano


Nesta entrevista, conversamos com Frei Marx Rodrigues dos Reis, Diretor Secretário

do Sefras, (Ação Social Franciscana), sobre uma recente viagem a Roraima, realizada a convite da Comissão Episcopal Especial de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A missão, que destacou a grave situação de imigração na região, especialmente devido às fronteiras com a Guiana e a Venezuela, revelou desafios profundos e emocionantes, além de exposições a condições de extrema vulnerabilidade.





O tráfico humano é um problema global que afeta milhões de pessoas. Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), aproximadamente 25 milhões de pessoas em todo o mundo são vítimas do tráfico humano. No Brasil, as estatísticas também são alarmantes: entre 2017 e 2021, foram registrados mais de 1.500 casos de tráfico humano, sendo Roraima um dos estados mais afetados devido à sua localização geográfica e à crise migratória venezuelana.


A imigração também é um tema crítico em Roraima. Segundo dados da Operação Acolhida, iniciativa do governo brasileiro, mais de 260 mil venezuelanos entraram no Brasil através de Roraima desde 2018, buscando refúgio da crise política, econômica e social em seu país. Essa imigração em massa tem sobrecarregado os recursos locais e exposto os migrantes a diversos riscos, incluindo o tráfico humano.





Frei Marx  compartilhou suas impressões e experiências, desde as visitas a várias operações e organizações locais até a interação direta com os migrantes e as comunidades afetadas. Ele descreveu momentos de tensão e alegria, ressaltando a complexidade do tráfico humano e as dificuldades enfrentadas pelas pessoas que vivem nessas condições. A entrevista também aborda as necessidades urgentes de políticas públicas robustas e integradoras para melhorar a situação em Roraima.


A seguir, apresentamos a entrevista em formato de ping pong, onde cada pergunta e resposta se alternam, proporcionando uma visão clara e direta das questões discutidas e das soluções propostas para enfrentar esses desafios humanitários, finalizando com o olhar franciscano sobre o tema.


Sefras: Como foi a viagem a Roraima?


Frei Marx:  A nossa viagem foi organizada em resposta a um convite de uma comissão especial da Conferência dos Bispos do Brasil (CBB), que costuma formar comissões para discutir temas específicos. Desta vez, era uma comissão especial contra o tráfico humano. Eles já realizaram várias atividades e têm quatro objetivos principais. Fomos convidados pela comissão por causa do nosso trabalho de referência com a migração, especialmente devido à situação migratória em Roraima, que faz fronteira com a Guiana e a Venezuela.





Sefras: O que mais te marcou nessa experiência?


Frei Marx: Três coisas me marcaram profundamente. Primeiro, perceber que Roraima é um reflexo de São Paulo. Em ambos os lugares, o tráfico humano acontece de maneira invisível. Segundo, fiquei assustado com a ligação entre tráfico humano e outros processos de vulnerabilidade, como o garimpo ilegal e o trabalho analago a escravidão. Terceiro, a quantidade de meninas traficadas e a violência contra corpos femininos, algo que muitas vezes é ignorado ou minimizado.


Sefras: Como foi a interação com as autoridades e as organizações locais?


Frei Marx: Tivemos a oportunidade de conhecer o trabalho da Operação Acolhida, que é gigantesca. Em momentos de alta, chegam a receber até 3000 pessoas por dia. Visitamos vários lugares graças à articulação do bispo Evaristo, que é nosso confrade. Conversamos com pessoas atendidas, e as violações de direitos são assustadoras. Muitos não percebem que estão em situação de tráfico humano.


Sefras: Quais são os desafios enfrentados pelas pessoas em Roraima?


Frei Marx: As pessoas estão emocionalmente algemadas a situações de extrema vulnerabilidade. Meninas são agenciadas para prostituição, pessoas trabalham em condições análogas à escravidão, e muitas não têm coragem de admitir sua situação por vergonha ou medo. A falta de políticas públicas adequadas agrava esses problemas.


Sefras: Qual é a importância do Sefras estar ali?


Frei Marx: Nossa presença é crucial para entender as nuances da migração e do tráfico humano. O Sefras tem experiência em trabalhar com migração e população em situação de rua, e nossa missão é ajudar a criar políticas mais eficazes e humanizadas. Precisamos distinguir as condições específicas de cada grupo e pensar em políticas que considerem gênero, idade e outras vulnerabilidades.





Sefras: O que o governo precisa fazer naquela região?


Frei Marx: É essencial criar uma política municipal robusta contra o tráfico humano e melhorar a estrutura de acolhimento para migrantes. A operação atual, embora grande, não consegue proporcionar um atendimento humanitário adequado devido ao volume de pessoas. As cidades de Boa Vista e Pacaraima precisam de investimentos em saneamento básico, saúde, educação e infraestrutura para lidar com o aumento da população.


Sefras: E a sociedade civil, como pode contribuir?


Frei Marx: A sociedade civil deve trabalhar para integrar os migrantes como sujeitos plenos da comunidade, promovendo cidadania, moradia e educação adequada. É necessário mudar a percepção de que a migração é um problema e reconhecer que os migrantes contribuem significativamente para a sociedade. A sociedade civil deve cobrar políticas públicas que vão além da regularização documental e que promovam uma acolhida digna e integral.


Sefras: Quais são as suas reflexões finais após essa missão?


Frei Marx: Saio com sentimentos mistos. Por um lado, estou feliz por termos colocado essa pauta na mesa e por ver que há uma igreja comprometida em Roraima. Por outro lado, sinto uma grande angústia. A vulnerabilidade que alimenta o tráfico humano é alarmante, e a falta de políticas eficazes para enfrentar esses problemas é desoladora. Precisamos continuar lutando para que essas questões sejam tratadas com a seriedade e urgência que merecem.


Sefras: Frei Marx, qual seria o olhar franciscano sobre a situação que você encontrou?




Frei Marx: O olhar franciscano é inspirado por São Francisco de Assis, que, durante as Cruzadas, encontrou o Sultão desarmado e com pés descalços, buscando o diálogo em vez do conflito. São Francisco ensinou que, ao nos aproximarmos do outro sem armas e com humildade, conseguimos estabelecer um verdadeiro diálogo e reconhecer o valor do outro. Ele não apenas foi para as periferias geográficas, mas também para as periferias da existência humana, convivendo com os leprosos e cuidando deles em suas feridas abertas. São Francisco bebia da mesma tigela que os leprosos, mostrando um profundo compromisso com a dignidade humana e a solidariedade.

Neste contexto, podemos ver que uma das maiores chagas da humanidade hoje é o tráfico humano. Assim como São Francisco se misturou com os mais sofridos, nós também devemos nos aproximar dessas situações com empatia e ação concreta. O olhar franciscano nos chama a sermos homens e mulheres de paz e solidariedade, promovendo a justiça e a dignidade para todos. Este é o caminho que seguimos no Sefras, inspirado pelos ensinamentos de São Francisco, buscando transformar a realidade dos migrantes e combater o tráfico humano através do amor e da ação.



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